Excesso de competitividade no desporto dos mais novos

 

A competitividade que caracteriza as nossas sociedades, é bem visível em vários desportos. E esse excesso chega já aos escalões mais novos de vários desportos. E chega, frequentemente através dos adultos, pais e treinadores.

É urgente alterar esta situação pois ela é causadora de diversos problemas que afetam a vida social, mas também a vida dos jovens atletas.

Prevenir o excesso de competitividade não é “acabar com a vontade de ganhar”, mas sim, ensinar as crianças a competir de forma saudável. Mas isso obriga os adultos, pais, treinadores e responsáveis dos clubes a alterar a atitude e a forma de interagirem com as crianças e jovens. Vejamos algumas das linhas de atuação mais apropriadas:

 

Mudar o foco: menos no resultado e mais no desafio em si

Em vez de perguntar: “Ganharam?” “Quantos golos marcaste?”

Experimente: “Divertiste-te?” “O que aprendeste hoje?” “O que correu melhor do que da última vez?”

Isto diz à criança que: Melhorar é mais importante do que ser o melhor e que não precisa de ser perfeita para ter valor.

 

Exaltar o esforço, não o talento

Evitar frases tipo: “És o melhor da equipa”, “Tu és o craque, os outros não jogam nada.”

Preferir:

- “Gostei de ver o teu esforço mesmo quando estavam a perder.”

- “Trabalhaste muito nos treinos e notou-se no jogo.”

- “Todos louvaram a tua atitude quando ajudaste o colega.”

Assim, a criança aprende que:

- O importante é empenhar-se.

- Não precisa “pisar” os outros para se sentir boa.

 

Definir regras claras de “fair play

Antes de competir, combinar regras como:

- Não humilhar colegas/adversários quando falham.

- Cumprimentar adversários antes e depois do jogo.

- Aceitar decisões do árbitro/treinador sem insultos.

- Ajudar um colega lesionado, mesmo se for da outra equipa.

E depois reforçar:

- “Hoje não ganhaste, mas foste muito correta/o com os outros. Isso é ser um bom desportista.”

Vigiar a linguagem e as atitudes dos adultos nas bancadas

Os miúdos copiam o que veem. Atenção a:

- Gritos agressivos e ofensas na bancada

- Culpar árbitro, treinador ou colegas por tudo.

- Falar mal dos outros pais, treinadores ou crianças.

Tentar:

- Elogiar boas jogadas de qualquer equipa.

- Não dramatizar derrotas (“É só um jogo, serve para aprender.”).

- Mostrar respeito pelo treinador, mesmo quando não se concorda.

 

Evitar comparações constantes

Frases que alimentam competição tóxica:

- “O teu irmão é muito melhor do que tu.”

- “Tens de ser tão boa como a Maria, estás a ficar para trás.”

- “Se continuares assim, o João é que vai ser titular, não tu.”

Trocar por:

- “Cada um tem o seu ritmo.”

- “O importante é estares melhor do que tu mesma há um mês.”

- “O teu esforço é o que conta, não o que os outros fazem.”

 

Dar espaço a outros objetivos além de ganhar

Combinar com a criança objetivos como:

“Hoje vou tentar:

- comunicar melhor com a equipa

- não desistir mesmo cansada/o

- encorajar pelo menos um colega.”

E depois do jogo:

- “Conseguiste apoiar os colegas como tinhas combinado?”

- “Em que momento mostraste coragem?”

 

Cuidado com excesso de treinos e pressão por resultados

Sinais de alerta:

  • Choro antes dos jogos por medo de falhar.
  • Medo exagerado de decepcionar pais/treinador.
  • Fica muito irritada quando perde ou quando um colega erra.
  • Só fala de “ser a melhor”, “não posso perder”, “se falho, não presto”.

Nestes casos ajuda:

  • Reduzir carga de treinos ou competições.
  • Falar abertamente: “Gosto de ti independentemente de ganhares ou perderes.”
  • Se necessário, pedir apoio a psicólogo do desporto ou da escola.

 

Promover desportos e atividades cooperativas

Além das competições:

- Jogos em que o objetivo é cooperar (estafetas, desafios em equipa, jogos sem vencedor claro).

- Atividades em que todos têm um papel (rotações de posição, capitão diferente em cada jogo).

- Projetos fora do desporto (música, arte, voluntariado) para que a identidade da criança não seja só “o atleta”.

 

Ser modelo do que se quer ver

Pais e treinadores, sejam modelos do que se quer ver. Façam a vós próprios as perguntas::

“Se todos copiassem o meu comportamento na bancada/treino, isto seria saudável?”

Mostrar:

- Saber perder sem humilhar ninguém.

- Alegrar-se pelo esforço e evolução, não só pelas vitórias.

- Admitir erros (“Hoje exagerei um bocado, peço desculpa.”).


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