CRESCER SEM ÁLCOOL
PREVENIR O CONSUMO NA ADOLESCÊNCIA: O DESAFIO PARA UMA GERAÇÃO
Em Portugal, o consumo de álcool faz parte de muitas rotinas sociais e familiares. Brindes em festas, jantares prolongados, convívios desportivos: quase tudo parece ter um copo associado. Quando os adultos estão por perto e o consumo é responsável, o risco é menor. Mas na adolescência, em pleno processo de crescimento físico, emocional e social, o consumo de álcool pode deixar marcas profundas. Mais do que apontar o dedo aos jovens, é urgente perguntar: o que podemos fazer, concretamente, para prevenir que o álcool se torne presença habitual nas suas vidas?
A resposta não está num único setor, nem numa medida isolada. Passa pela família, pela escola, pelos serviços de saúde, pelas autarquias, pelos clubes desportivos, pelas forças de segurança e, claro, pelos próprios adolescentes. A prevenção eficaz é um trabalho de equipa.
Falar cedo, com clareza e sem alarmismos
A prevenção começa em casa. Os jovens observam atentamente o comportamento dos adultos e, muitas vezes, aprendem mais pelo exemplo do que pelos discursos. Pais e cuidadores que consomem álcool com moderação, que não associam “divertir-se” a “beber muito”, estão a enviar uma mensagem poderosa.
Mas o exemplo não chega. É importante falar cedo sobre o álcool, de forma simples e ajustada à idade. Em vez de frases vagas como “isso faz-te mal”, é útil explicar que o cérebro do adolescente ainda está em desenvolvimento e que o álcool pode afetar a memória, a atenção, o controlo das emoções e aumentar o risco de acidentes e comportamentos impulsivos. Conversas curtas, repetidas ao longo do tempo, valem mais do que um “sermão” ocasional.
Criar espaço para o diálogo também implica ouvir. Muitos jovens experimentam álcool por curiosidade, pressão do grupo ou para lidar com inseguranças. Quando sentem que podem falar sem ser julgados, é mais provável que partilhem dúvidas e situações de risco, permitindo aos adultos apoiar e orientar.
Escola e comunidade: aprender a dizer “não” sem ficar de fora
A escola é um lugar privilegiado para trabalhar competências pessoais e sociais que protegem contra o consumo precoce de álcool. Programas que desenvolvem a autoestima, a capacidade de resistir à pressão dos pares, a gestão de emoções e a tomada de decisões informada tendem a ser mais eficazes do que ações pontuais, centradas apenas em “mostrar os perigos”.
Atividades interativas — debates, trabalhos de grupo, dramatizações, projetos feitos pelos próprios alunos — ajudam a transformar informação em reflexão crítica. Quando os jovens são chamados a participar, a pensar e a propor soluções, sentem-se parte do processo, em vez de simples receptores de recomendações.
Também a comunidade tem um papel central. Clubes desportivos, associações juvenis, grupos culturais ou escuteiros podem oferecer alternativas saudáveis de ocupação dos tempos livres: desporto, arte, voluntariado, iniciativas ambientais. Quanto mais oportunidades houver para os jovens se divertirem, conviverem e se sentirem valorizados sem álcool, menor será a necessidade de recorrer à bebida para “pertencer ao grupo”.
Regulamentar, sensibilizar e envolver os próprios adolescentes
A prevenção inclui igualmente políticas públicas coerentes. O cumprimento das leis que regulam a venda de álcool a menores, a fiscalização em eventos e estabelecimentos e a limitação da publicidade dirigida a jovens são medidas que reduzem a disponibilidade e a normalização do consumo precoce.
Campanhas de sensibilização podem ter mais impacto quando são cocriadas com adolescentes. São eles que conhecem a linguagem, as redes sociais e as situações em que a pressão para beber é maior. Envolvê-los na conceção de vídeos, podcasts, cartazes ou ações nas escolas é reconhecer a sua capacidade de serem parte da solução.
Por fim, é importante lembrar que nem todos os jovens são iguais. Alguns vivem situações de maior vulnerabilidade — conflitos familiares, dificuldades económicas, problemas de saúde mental — que aumentam o risco de consumo. Identificar precocemente estes casos e garantir acesso a apoio psicológico e social é uma forma concreta de prevenção.
Prevenir o consumo de álcool na adolescência não é retirar aos jovens o direito de se divertirem.
É, pelo contrário, dar-lhes a possibilidade de crescerem de forma livre, informada e segura, para que, no futuro, possam tomar decisões conscientes sobre o que querem — ou não querem — colocar no seu copo.